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BLOG DO LUIZ VALÉRIO

Uma eleição entre o dinheiro vivo, a Polícia Federal e a pobreza de ideias

Operações policiais, suspeitas de compra de votos, assédio eleitoral e uma campanha dominada pela disputa para saber quem é mais de direita ajudam a desenhar o triste retrato das eleições de 2026 em Roraima

Imagem meramente ilustrativa criada com IA

Há alguma coisa profundamente errada quando, numa eleição, as propostas desaparecem do debate e as viaturas da Polícia Federal começam a ocupar espaço demais no noticiário político. Foi exatamente essa fotografia que Roraima produziu nos últimos dias.

Em menos de 72 horas, operações da Polícia Federal atravessaram o caminho de candidatos, servidores públicos, estruturas de campanha e até instituições do Estado. Dinheiro em espécie, listas com nomes, suspeitas de compra de votos, pressão sobre servidores e possível utilização da máquina pública para influenciar o eleitor entraram no vocabulário de uma campanha que, convenhamos, já vinha oferecendo muito pouco em matéria de ideias.

É preciso fazer aqui uma ressalva elementar, mas indispensável: investigação não é condenação. Prisão em flagrante tampouco equivale a sentença definitiva. Todos os envolvidos têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Mas seria igualmente irresponsável fingir que nada está acontecendo.

Na quinta-feira, 24 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Filargíria, destinada originalmente a investigar suspeitas de lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos. A investigação nasceu depois da apreensão, em outubro de 2025, de aproximadamente R$ 305 mil em espécie. Segundo a PF, as apurações posteriores encontraram indícios de entrega reiterada de dinheiro vivo a terceiros e utilização de contas de passagem para movimentar valores supostamente provenientes de recursos públicos.

No meio desse caminho apareceu o ex-deputado estadual e atual candidato Jalser Renier. Durante as buscas, foram encontrados R$ 19 mil em espécie e documentos relacionados à campanha. O material levantou suspeitas de crime eleitoral e Jalser acabou preso. Sua defesa sustenta que o dinheiro tem origem lícita e natureza pessoal e que as planilhas apreendidas dizem respeito à organização da campanha, incluindo cabos eleitorais, apoiadores e voluntários.

No dia seguinte, Jalser deixou a prisão depois de audiência de custódia. Antes que a poeira baixasse, veio a sexta-feira.

A Operação Cunhambebe também não começou como investigação eleitoral. A Polícia Federal apurava a realização de cursos clandestinos de segurança privada e a possível formação de um grupo organizado para dificultar a atuação de órgãos públicos na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Entre os crimes investigados pela PF estão, em tese, constituição de milícia privada, incitação ao crime, receptação qualificada e embaraço à fiscalização ambiental.

Durante as buscas relacionadas ao candidato a deputado federal Daniel Trindade, porém, apareceram novamente elementos que levaram a suspeitas de crime eleitoral. Daniel foi preso. Passou a noite sob custódia e, no sábado, foi colocado em liberdade depois de audiência, mediante fiança de R$ 10 mil e obrigação de comparecimento periódico à Justiça. Sua defesa nega os crimes, afirma sua inocência e sustenta que o candidato é vítima de perseguição política.

Quando parecia que o fim de semana poderia finalmente devolver a campanha aos santinhos, bandeiras, jingles e discursos previsíveis, veio outra operação. No sábado, 26, a Polícia Federal deflagrou a Operação Auctoritas e cumpriu três mandados de busca e apreensão em Boa Vista e Rorainópolis.

Desta vez, a investigação entrou em terreno ainda mais delicado: a possível utilização de vínculos e funções públicas para constranger ou influenciar servidores e colaboradores em benefício de determinadas candidaturas. Segundo a própria Polícia Federal, há investigação sobre uma possível estrutura organizada para mobilização e arregimentação de eleitores, inclusive com suspeita de oferta ou promessa de vantagens vinculadas ao apoio eleitoral.

Ou seja: já não estamos falando apenas das extravagâncias que tradicionalmente acompanham as campanhas eleitorais de Roraima. Estamos falando de algo muito mais sério. Estamos falando da qualidade da nossa democracia.

A campanha que esqueceu Roraima

Talvez o mais inquietante seja perceber que tudo isso ocorre em uma eleição que já vinha marcada por uma assustadora pobreza de conteúdo. Roraima tem problemas gigantescos esperando respostas.

Temos uma economia excessivamente dependente do setor público. Temos dificuldades históricas na saúde. Temos escolas que precisam avançar em infraestrutura e qualidade. Temos estradas, pontes, energia, saneamento, habitação, segurança pública e geração de empregos esperando políticas de longo prazo. 

Temos uma crise migratória que transformou Boa Vista e Pacaraima e exige respostas muito mais sofisticadas do que slogans. Temos o garimpo ilegal, os conflitos em terras indígenas, a questão ambiental e a necessidade urgente de construir alternativas econômicas capazes de produzir riqueza sem transformar floresta, rios e comunidades em vítimas do desenvolvimento. Onde está esse debate?

Em boa parte da campanha, desapareceu. No lugar dele surgiu uma espécie de campeonato ideológico para descobrir quem consegue ocupar o centímetro mais à direita do espectro político. É uma disputa curiosa.

Candidato tentando provar que é mais conservador que o adversário. Outro procurando demonstrar que é mais bolsonarista. Outro resgatando fotografias, declarações, amizades e episódios antigos para comprovar sua pureza ideológica. A eleição estadual vai sendo transformada numa espécie de vestibular do conservadorismo.

Enquanto isso, Roraima espera. Espera uma proposta consistente para a saúde. Espera saber como vamos diversificar nossa economia. Espera políticas para agricultura, indústria, turismo e tecnologia. Espera uma discussão séria sobre o futuro dos jovens. Espera candidatos capazes de explicar não apenas contra quem estão, mas principalmente o que pretendem fazer caso sejam eleitos. Parece pedir demais.

A política como espetáculo

Há também uma dose considerável de bizarrice nesta eleição. Algumas candidaturas parecem ter compreendido definitivamente que, na política contemporânea, chamar atenção pode ser mais importante do que apresentar uma ideia. Vale a performance. Vale o vídeo calculado para viralizar. Vale a frase grotesca. Vale a provocação. Vale a caricatura.

Vale transformar o debate público em extensão das redes sociais, onde o algoritmo recompensa indignação, conflito e exagero.

A consequência é uma campanha que frequentemente parece menos interessada em convencer cidadãos do que em produzir conteúdo. O candidato deixa de ser candidato e vira personagem. O eleitor deixa de ser cidadão e vira audiência. E a política, que deveria ser instrumento de construção coletiva, transforma-se em espetáculo.

O problema é que hospitais não funcionam com memes. Estradas não são recuperadas com lacração. Escolas não melhoram com vídeos de quinze segundos. E nenhum Estado se desenvolve porque seus candidatos descobriram a frase perfeita para provocar o adversário no Instagram.

Dinheiro, listas e votos

Mas há uma fronteira que separa o ridículo do perigoso. E essa fronteira aparece quando as suspeitas deixam o terreno da performance política e entram no campo da legislação eleitoral. As operações desta semana precisam ser investigadas até o fim.

Não importa o partido. Não importa se o candidato se apresenta como esquerda, direita, conservador, liberal ou qualquer outra etiqueta disponível no supermercado ideológico das eleições.

Compra de voto não tem ideologia. Assédio eleitoral não tem ideologia. Uso de estrutura pública para pressionar servidor não tem ideologia. Se comprovadas, são práticas que atingem diretamente a liberdade do eleitor — justamente o princípio que sustenta qualquer democracia digna desse nome.

Talvez por isso as imagens desses últimos dias sejam tão simbólicas. Dinheiro vivo. Listas de nomes. Mandados judiciais. Viaturas policiais. Candidatos entrando e saindo de delegacias e presídios para, horas depois, retornarem às ruas pedindo votos. É uma sequência que deveria causar algum desconforto coletivo.

Não porque alguém deva ser condenado antecipadamente. Isso cabe à Justiça. Mas porque uma sociedade democrática não pode normalizar a suspeita permanente de que o voto ainda seja tratado como mercadoria.

O voto não pode ter preço

Roraima conhece essa história. Durante décadas, nossa política foi construída também sobre relações de dependência, favores pessoais, empregos, pequenos benefícios e redes de influência que confundem permanentemente o público e o privado.

Modernizamos as campanhas. Chegaram Instagram, TikTok, inteligência artificial, marketing digital, drones, vídeos cinematográficos e equipes profissionais de comunicação. Mas certas práticas parecem resistir heroicamente ao século XXI.

Mudou a tecnologia. O velho balcão político continua ali.

É justamente por isso que as operações da Polícia Federal desta semana não podem ser vistas apenas como episódios policiais isolados. Elas devem provocar uma reflexão muito mais ampla sobre a política que estamos construindo.

Porque o problema não termina no candidato que eventualmente compra um voto. Existe também o ambiente político que naturaliza essa possibilidade. Existe a estrutura que transforma necessidade econômica em vulnerabilidade eleitoral. Existe o cabo eleitoral que negocia influência. Existe o agente público que confunde cargo com instrumento de campanha. E existe uma cultura política que, durante muito tempo, tratou determinadas práticas como parte natural da eleição. E não são.

Democracia não é apenas colocar uma urna eletrônica numa escola a cada dois anos. Democracia pressupõe liberdade. E um voto comprado, coagido ou obtido mediante abuso de poder deixa de ser plenamente livre.

Uma eleição que precisa melhorar

Ainda há tempo para esta campanha mudar de rumo. Ainda há tempo para candidatos explicarem como pretendem governar Roraima. Ainda há tempo para apresentar projetos, confrontar números, discutir prioridades e dizer de onde virá o dinheiro para financiar cada promessa feita no palanque. Ainda há tempo para substituir a competição de radicalismos pelo confronto de ideias. Mas os últimos dias deixaram um alerta difícil de ignorar.

Quando uma eleição produz mais manchetes policiais do que discussões programáticas, alguma coisa saiu do lugar. 

Quando candidatos precisam gastar energia explicando dinheiro encontrado durante operações policiais, listas de eleitores ou suspeitas de irregularidades, enquanto questões fundamentais do Estado permanecem em segundo plano, a democracia perde qualidade.

E quando tudo isso convive com uma campanha rasteira, pobre em propostas e recheada de personagens cada vez mais extravagantes, o resultado é uma eleição que corre o risco de ser lembrada não pelas ideias que apresentou, mas pelas cenas que produziu.

Roraima merece coisa melhor. O eleitor também.

No fim das contas, a pergunta mais importante desta eleição talvez nem seja quem consegue provar que é mais de direita, mais conservador ou mais fiel a determinado líder nacional.

A pergunta deveria ser muito mais simples: quem tem um projeto sério para Roraima?

Depois de uma semana de dinheiro vivo, listas de nomes, prisões, buscas e suspeitas de crimes eleitorais, talvez seja uma boa hora para os candidatos começarem a responder.

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