A mobilização de grandes clubes brasileiros em defesa da manutenção do mercado regulamentado de apostas esportivas encontrou forte resistência entre os próprios torcedores. Levantamento da consultoria Bites, realizado a pedido do jornal O Globo, apontou que até 90% dos comentários feitos nas publicações analisadas eram contrários às bets.
A pesquisa avaliou postagens de Vasco, Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo. As manifestações foram divulgadas em 17 de setembro, quando clubes e federações reagiram à possibilidade de o governo federal ampliar as restrições ao setor de apostas.
A maior rejeição apareceu no perfil do Vasco. Segundo o levantamento, 90% dos comentários eram explicitamente contrários às casas de apostas. No Flamengo, o índice chegou a 86%, enquanto a publicação conjunta envolvendo Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo registrou 85% de manifestações negativas sobre as bets.
Além do percentual elevado de críticas, as publicações registraram volume de interação muito acima do habitual. O post do Vasco acumulou quase 25 mil comentários, enquanto a publicação do Flamengo ultrapassou 55 mil respostas.
A Bites classificou como negativos os comentários que apresentavam posição explicitamente contrária às apostas. As demais manifestações foram agrupadas nas categorias “neutro” ou “outros”. Mesmo entre os considerados neutros, havia críticas às diretorias dos clubes relacionadas a outros assuntos.
A repercussão também aparece em outro levantamento, realizado pelo Instituto DX. Entre 14 e 21 de setembro, o debate sobre as bets movimentou cerca de 654,8 mil publicações e 9,3 milhões de interações nas redes sociais. O manifesto dos clubes e as discussões sobre os efeitos de eventuais restrições ao futebol responderam por 32% das publicações analisadas.
Clubes alegaram risco financeiro
No manifesto, divulgado com o título “O fim do futebol brasileiro”, os clubes defenderam a manutenção do mercado regulamentado. Embora tenham reconhecido problemas sociais relacionados à expansão das apostas, argumentaram que uma mudança abrupta nas regras poderia provocar impactos financeiros significativos no esporte.
As casas de apostas ganharam espaço expressivo no financiamento do futebol brasileiro nos últimos anos, especialmente por meio de contratos de patrocínio. Por isso, dirigentes passaram a defender maior fiscalização, educação e proteção aos consumidores como alternativas à proibição do setor.
Governo decidiu proibir as bets
Desde a publicação do levantamento, porém, o cenário mudou. Nesta sexta-feira (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma Medida Provisória que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, abrangendo apostas esportivas e jogos on-line.
Antes da edição da MP, Lula já havia criticado publicamente a posição dos clubes. Em ato realizado em Guarulhos no dia 18, o presidente afirmou que pretendia acabar com as bets e contestou o argumento de que uma eventual proibição significaria o fim do futebol brasileiro.
Com a decisão do governo, o debate agora se desloca para os efeitos econômicos da medida sobre clubes que construíram parte relevante de suas receitas comerciais em contratos com empresas do setor, justamente no momento em que a reação registrada nas redes indica resistência de uma parcela expressiva dos torcedores à defesa pública das casas de apostas.


