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BLOG DO LUIZ VALÉRIO

Quando a fome pelo poder devora a democracia

Prisões, dinheiro vivo e suspeitas de compra de votos expõem uma contradição incômoda em Roraima: há quem prometa combater a velha política enquanto reproduz práticas que pertencem ao seu pior repertório

Há alguma coisa profundamente errada quando uma eleição precisa ser acompanhada por uma sucessão quase cotidiana de operações policiais, prisões, dinheiro apreendido e investigações sobre compra de votos.

Não estou falando aqui de divergência ideológica. Tampouco de preferência por este ou aquele candidato. Falo de algo anterior às nossas escolhas partidárias: o direito do eleitor de escolher livremente quem deseja colocar no poder.

Esse deveria ser um princípio elementar e inegociável.

Mas os acontecimentos da reta final das Eleições 2026 em Roraima nos obrigam a olhar para uma realidade desconfortável.

Entre quinta-feira e sábado, pelo menos 47 pessoas foram presas em ações relacionadas principalmente a suspeitas de corrupção eleitoral e compra de votos. Somando valores explicitamente identificados nas ocorrências analisadas e os R$ 300 mil encontrados neste domingo na Operação Cota-Parte, chegamos a mais de R$ 417 mil em dinheiro.

Vieram também listas com nomes de eleitores, CPFs, anotações e outros materiais recolhidos pelos investigadores.

É necessário fazer uma ressalva indispensável: investigação não é condenação. Prisão, apreensão ou cumprimento de mandado também não autoriza ninguém a declarar culpado quem ainda responde a uma investigação.

Mas isso não nos impede de discutir o fenômeno político que esses acontecimentos revelam. E ele é perturbador.

A compra de votos costuma ser tratada apenas como crime eleitoral. Juridicamente, evidentemente, é isso. Politicamente, entretanto, significa muito mais. Comprar um voto é tentar estabelecer um preço para a consciência de alguém. É transformar cidadania em mercadoria. É substituir convencimento por dinheiro. É trocar propostas por notas.

É retirar do eleitor aquilo que constitui a essência de uma eleição democrática: a liberdade de escolher.

Quando alguém oferece dinheiro, benefício ou vantagem para determinar o voto de outra pessoa, não está apenas tentando conquistar uma eleição. Está interferindo na formação livre da vontade popular.

E não existe democracia verdadeira onde a vontade pode ser comprada no varejo. A urna deveria ser o lugar onde ricos e pobres possuem exatamente o mesmo patrimônio político: um voto.

É uma das poucas ocasiões em que a República oferece ao cidadão comum o mesmo peso formal concedido ao empresário milionário, ao governador, ao senador, ao deputado ou ao dono de grandes estruturas econômicas.

Quando o dinheiro entra clandestinamente nessa equação, essa igualdade começa a desaparecer.

O paradoxo dos discursos de renovação

Existe ainda uma contradição particularmente incômoda nesta eleição. Durante anos ouvimos discursos contra a chamada “velha política”. Prometeram enfrentar corruptos. Prometeram moralizar os costumes políticos. Prometeram expulsar do poder aqueles que representariam práticas ultrapassadas. Prometeram uma política diferente.

Mas nenhuma renovação acontece apenas porque alguém troca o vocabulário, o partido, a roupa, o slogan ou a fotografia do santinho. A velha política não é uma questão de idade.

A velha política é um método.

Ela aparece quando o interesse público é submetido ao projeto pessoal de poder. Quando estruturas públicas são tratadas como extensão de campanhas. Quando vantagens substituem argumentos. Quando eleitores deixam de ser cidadãos para se transformar em números numa planilha. Quando dinheiro passa a ocupar o espaço que deveria pertencer às ideias.

E, sobretudo, quando vencer se torna mais importante do que respeitar as regras que legitimam a própria vitória. Por isso existe uma pergunta inevitável para qualquer candidato que construiu sua imagem dizendo combater corrupção e práticas políticas ultrapassadas: qual é o valor desse discurso quando pessoas ligadas ao processo eleitoral aparecem sob investigação justamente por práticas que esse mesmo discurso afirma combater?

A resposta não pode ser encontrada num slogan. Precisa ser encontrada na coerência.

Não existe corrupção boa

Talvez tenhamos naturalizado uma das ideias mais perigosas da política contemporânea: a de que corrupção é sempre aquilo que o adversário pratica.

Quando acontece do outro lado, é escândalo. Quando acontece perto dos nossos, surgem justificativas, relativizações e teorias convenientes. Esse comportamento destrói qualquer possibilidade de moralidade pública. Não existe corrupção progressista ou conservadora. Não existe compra de votos de direita ou de esquerda. Não existe abuso eleitoral aceitável porque cometido pelo candidato que consideramos melhor.

A democracia exige algo muito mais difícil do que apontar os defeitos do adversário. Exige aplicar aos nossos os mesmos princípios que exigimos dos outros. Caso contrário, moralidade deixa de ser princípio e passa a ser apenas instrumento eleitoral.

Existe ainda um aspecto particularmente perverso na compra de votos. Ela prospera justamente onde a necessidade é maior.

Quem tem fome, dívida, filho para alimentar, remédio para comprar ou conta vencida torna-se mais vulnerável à abordagem daqueles que possuem dinheiro e desejam transformá-lo em poder político.

Por isso não considero suficiente condenar apenas quem eventualmente aceita vender o voto. É preciso observar a enorme desigualdade existente nessa relação. De um lado pode estar alguém atravessando necessidades concretas. Do outro, estruturas políticas capazes de movimentar recursos justamente para explorar essa fragilidade.

Transformar pobreza em oportunidade eleitoral é uma das formas mais degradantes de exercício do poder. O cidadão merece políticas públicas que lhe permitam viver com dignidade. Não algumas notas entregues às vésperas da eleição em troca de sua consciência política.

Democracia não é apenas colocar o voto na urna

Talvez precisemos lembrar disso. Democracia não significa simplesmente abrir as escolas no domingo, instalar urnas eletrônicas e contar votos no fim do dia.

Tudo isso é fundamental. Mas democracia pressupõe liberdade. Pressupõe igualdade de condições. Pressupõe respeito às regras. Pressupõe que o resultado represente, tanto quanto possível, a manifestação autêntica da vontade popular.

Uma eleição contaminada por dinheiro ilegal, coação ou compra de votos pode preservar a aparência do ritual democrático enquanto corrói aquilo que lhe dá sentido.

A urna permanece lá. O eleitor aperta os números. A máquina confirma. Mas a pergunta permanece: aquela escolha nasceu verdadeiramente da vontade do cidadão? É exatamente por isso que combater crimes eleitorais não significa interferir na democracia.

Significa protegê-la.

Roraima chegará ao fim desta eleição carregando perguntas que não desaparecerão quando as urnas forem fechadas.

As investigações precisarão continuar. Responsabilidades precisarão ser individualizadas. Quem for inocente deverá ser tratado como inocente. Quem tiver cometido crimes deverá responder por eles dentro das garantias estabelecidas pela lei.

Mas nós, como sociedade, também precisaremos fazer nosso próprio julgamento — não o julgamento criminal, que pertence à Justiça, mas aquele sobre a cultura política que desejamos aceitar.

Porque existe algo muito maior em jogo do que uma eleição. Está em jogo a ideia de República. O poder democrático não pertence aos candidatos. Não pertence aos partidos. Não pertence às famílias políticas. Não pertence aos financiadores de campanha.

O poder pertence ao cidadão. Quem disputa uma eleição recebe apenas a oportunidade de pedir esse poder emprestado por alguns anos. Talvez alguns tenham esquecido disso. Talvez a obsessão por vencer tenha se tornado tão grande que os princípios passaram a parecer obstáculos.

E esse é precisamente o momento em que a política perde sua razão de existir. Porque quem precisa atropelar a democracia para conquistar o poder já começou a destruir aquilo que pretende governar.

No fim das contas, não existe discurso de renovação capaz de esconder para sempre a contradição entre aquilo que se promete no palanque e aquilo que se pratica nos bastidores.

A República não morre necessariamente em grandes rupturas. Às vezes ela vai enfraquecendo lentamente, nota após nota, voto após voto, princípio após princípio. Quando vencer se torna mais importante do que respeitar a liberdade do eleitor, a fome pelo poder começa a devorar tudo ao redor.

Até que reste apenas o poder. E nenhuma República. Porque, no fim, a fome pelo poder mata os princípios republicanos por inanição.

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