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BLOG DO LUIZ VALÉRIO

Pesquisa aponta complexidade da relação entre religião, política e valores dos brasileiros

Levantamento nacional com 15 mil entrevistas mostra avanço dos evangélicos e dos “sem religião”, forte rejeição à campanha eleitoral dentro das igrejas e diferenças importantes de comportamento dentro dos próprios grupos religiosos

O Brasil continua sendo um país fortemente cristão, mas passa por uma transformação na maneira como a população se relaciona com a fé, as instituições religiosas e a política. É o que aponta a pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria.

O levantamento ouviu 15 mil pessoas presencialmente em 412 municípios, com margem de erro de 1%. Além de identificar o pertencimento religioso dos brasileiros, o estudo analisou práticas de fé, transmissão da religião entre gerações, comportamento político, consumo de conteúdo religioso e opiniões sobre temas sociais.

Os resultados revelam um cenário menos homogêneo do que algumas interpretações sobre religião no Brasil costumam sugerir. Fatores como escolaridade, renda, raça, gênero e região também aparecem associados às diferenças de opinião e comportamento observadas dentro de um mesmo segmento religioso.

De acordo com a pesquisa, 50% dos brasileiros se identificam como católicos. Desse total, 31% são classificados como praticantes e 19% como não praticantes.

Os evangélicos representam 29% da população. Dentro desse universo, 70% são pentecostais, 17% protestantes e 10% se declaram evangélicos sem igreja.

As Assembleias de Deus concentram 32% dos evangélicos entrevistados. Outros 28% pertencem a diferentes denominações pequenas e médias. Batistas e evangélicos sem igreja aparecem com 10% cada, enquanto Congregação Cristã representa 7%, Igreja Universal, 5%, e Igreja do Evangelho Quadrangular, 4%.

Outro dado relevante é o crescimento dos brasileiros classificados como “sem religião”, que correspondem a 14% da população. A expressão, porém, não significa necessariamente ausência de fé.

Entre os entrevistados desse grupo, 91% afirmam ter fé e 90% dizem acreditar em Deus. Além disso, 52% mantêm o hábito de orar diariamente. Ateus correspondem a 5% do grupo e agnósticos, a 10%.

Os números sugerem que parte da mudança religiosa brasileira ocorre mais pelo afastamento das instituições do que pelo abandono da espiritualidade.

Um em cada quatro brasileiros já mudou de religião

A circulação entre diferentes crenças também aparece com força no levantamento. Segundo a pesquisa, 23% dos brasileiros já mudaram de religião pelo menos uma vez na vida, enquanto 31% não permaneceram na religião de nenhum dos pais.

O resultado indica que a transmissão familiar da fé continua relevante, mas não determina necessariamente a escolha religiosa dos filhos.

Essa mobilidade ajuda a formar um cenário religioso cada vez mais diversificado, no qual identidades e práticas podem atravessar fronteiras entre diferentes tradições.

Brasileiros rejeitam campanha eleitoral dentro das igrejas

Um dos resultados mais expressivos aparece na relação entre religião e política.

Apesar da presença da fé na vida pública, a maioria dos entrevistados rejeita a transformação de templos em espaços de campanha eleitoral. Noventa por cento discordam da realização de campanhas dentro de ambientes religiosos, enquanto 83% são contrários à indicação de candidatos por lideranças religiosas e 82% rejeitam discussões políticas durante cultos e missas.

Quando questionados sobre as eleições de 2022, 78% disseram que suas lideranças religiosas não recomendaram candidatos.

Nos casos em que houve indicação de voto, a pesquisa aponta maior presença desse comportamento no segmento evangélico, com recomendações concentradas principalmente na candidatura de Jair Bolsonaro. Assembleia de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular e Igreja Universal apresentaram índices acima da média nacional de denominações nas quais houve recomendação eleitoral.

O levantamento também mostra diferenças políticas relevantes dentro de uma mesma religião quando são consideradas variáveis como raça e escolaridade. Entre católicos brancos, por exemplo, a pesquisa identificou equilíbrio de preferências, enquanto entre católicos pretos e pardos houve maior presença de preferências por candidaturas de esquerda. Entre evangélicos com ensino fundamental incompleto, o apoio a candidaturas de esquerda se aproxima do registrado pelas candidaturas de direita.

Educação sexual tem apoio de 79%

O levantamento também investigou opiniões sobre temas sociais frequentemente associados ao debate religioso.

A educação sexual nas escolas como instrumento de prevenção ao abuso infantil é apoiada por 79% dos entrevistados. O percentual chega a 80% entre católicos e 79% entre evangélicos.

Outro dado chama atenção: aproximadamente 90% dos brasileiros rejeitam retirar os filhos da escola para adotar exclusivamente o ensino domiciliar, o chamado homeschooling.

O uso de métodos contraceptivos, por sua vez, tem apoio de 80% da população. Já em relação à punição penal pelo aborto, as opiniões aparecem praticamente divididas: 47% são favoráveis e 45% contrários.

WhatsApp virou espaço importante da religião

A transformação da experiência religiosa também passa pelas redes sociais e plataformas digitais.

O WhatsApp, utilizado por 93% dos brasileiros segundo o estudo, tornou-se o principal ambiente de articulação das comunidades religiosas na internet, alcançando 66% dos grupos religiosos online.

O consumo de conteúdo de inspiração religiosa também ultrapassa as fronteiras das igrejas. A pesquisa aponta que 67% consomem músicas gospel, 59% assistem a filmes e séries religiosas e 73% leem a Bíblia. Parte desse conteúdo chega inclusive a pessoas de outras religiões ou sem vínculo religioso.

A pesquisa também identificou índices significativos de intolerância religiosa.

Entre os evangélicos entrevistados, 37% classificaram religiões afro-brasileiras como “do mal” ou “demoníacas”. O percentual foi de 23% entre integrantes de outras religiões cristãs, 18% entre católicos e 13% entre pessoas sem religião.

Dentro do segmento evangélico, os índices apresentados pela pesquisa chegam a 41% entre adventistas, 39% entre membros da Assembleia de Deus, 38% na Igreja Universal e 37% entre batistas. Entre evangélicos sem igreja, o percentual cai para 26%.

A rejeição aumenta quando a questão envolve relações familiares. Segundo o levantamento, 70% dos evangélicos disseram que proibiriam ou aceitariam a contragosto o casamento de um filho com uma pessoa de religião afro-brasileira. Entre católicos, o percentual é de 47%, e entre os sem religião, de 27%.

O estudo também registra relatos de discriminação sofrida por evangélicos. Entre os grandes grupos cristãos, eles relatam perceber mais preconceito religioso no cotidiano do que os católicos, embora os índices sejam ainda maiores entre praticantes de religiões afro-brasileiras.

Maioria prefere prevenção social ao endurecimento policial

Outro conjunto de resultados contrasta com a ideia de que segmentos religiosos seriam necessariamente favoráveis a políticas de segurança predominantemente punitivas.

Quando perguntados sobre onde o governo deveria priorizar recursos destinados à segurança pública, 77% apontaram educação e redução das desigualdades, enquanto 17% escolheram o fortalecimento das polícias e dos presídios.

A facilitação do acesso e da posse de armas de fogo é rejeitada por aproximadamente 70% dos entrevistados. Já 54% se posicionaram contra a pena de morte.

Sobre adolescentes que cometem crimes, a população aparece dividida: aproximadamente metade defende punições semelhantes às aplicadas aos adultos, enquanto a outra metade prefere medidas de reeducação. Nesse ponto, a pesquisa não encontrou variações relevantes relacionadas ao pertencimento religioso.

Retrato religioso do Brasil é mais complexo

Os resultados apresentados pelo ISER e pela Quaest apontam para um país que permanece profundamente religioso, mas no qual a identidade religiosa não funciona, isoladamente, como explicação para opiniões políticas, sociais e morais.

O avanço evangélico, a redução proporcional do catolicismo e o crescimento dos brasileiros sem religião convivem com intensa circulação entre crenças e com uma parcela expressiva de pessoas que mantém fé em Deus mesmo sem vínculo institucional.

Ao cruzar religião com região, raça, gênero, renda, escolaridade, posicionamento político e idade, a pesquisa encontra diferenças significativas dentro dos próprios grupos religiosos, indicando que categorias amplas como “católicos”, “evangélicos” ou “sem religião” não representam conjuntos necessariamente homogêneos de comportamento social e político.

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