Presidente da SBPC, Francilene Garcia alerta para a ausência de temas científicos e estratégicos no debate eleitoral brasileiro. Foto: SBPC/Divulgação.
A crise institucional e as denúncias relacionadas ao Banco Master estão ocupando o centro do debate público enquanto questões decisivas para o futuro do Brasil permanecem praticamente ausentes da campanha eleitoral. O alerta foi feito pela presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, em entrevista à Agência Brasil.
Doutora em engenharia elétrica, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Francilene afirma que o país foi empurrado para uma falsa escolha entre investigar possíveis irregularidades nas instituições e discutir um projeto nacional de desenvolvimento.
“O país acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda”, declarou.
Para a presidente da SBPC, a fiscalização dos Poderes e o respeito aos procedimentos constitucionais são indispensáveis, mas não deveriam paralisar discussões sobre ciência, educação, transição energética, transformação digital e preparação para futuras emergências sanitárias.
Ciência permanece fora da campanha
Segundo Francilene, a ciência brasileira ainda não conseguiu ocupar espaço relevante na atual disputa eleitoral. A ausência ocorre justamente em um momento no qual o setor precisa de regras estáveis, orçamento previsível e planejamento de longo prazo.
A SBPC criou o Observatório das Eleições 2026 para apresentar mais de uma centena de propostas de políticas públicas consideradas estratégicas para o desenvolvimento nacional. A iniciativa tenta envolver candidatos e ampliar o debate sobre mudanças climáticas, saúde, tecnologia e soberania.
Apesar do esforço, a adesão ainda é pequena. De acordo com a presidente da entidade, pouco mais de cem candidaturas haviam assumido compromisso com as propostas apresentadas. Entre elas, havia apenas uma candidatura ao Executivo federal e nenhuma aos governos estaduais.
“Temos pela frente um curto período pré-eleitoral, ao fim do qual escolhas terão que ser feitas sem que tenhamos respostas para problemas que afetam a vida de todos”, advertiu.
Francilene avalia que o envolvimento de candidatos ao Senado e à Câmara dos Deputados também perdeu força nos últimos dias, à medida que a crise política passou a monopolizar a cobertura jornalística e as discussões públicas.
Integridade das instituições e projeto nacional
A presidente da SBPC ponderou que a entidade não pretende antecipar julgamentos sobre investigações em andamento. Ela defendeu o cumprimento dos ritos processuais, a garantia do direito de defesa e o respeito aos prazos legais.
A preocupação, segundo Francilene, está na divulgação seletiva de informações e na disputa de versões usadas para atender a interesses particulares. Quando essa dinâmica domina a agenda pública, temas estruturais acabam afastados do debate.
“A integridade das instituições e os legítimos protocolos definidos na Constituição Federal precisam ser respeitados e cumpridos”, afirmou.
Para a pesquisadora, o Brasil precisa enfrentar simultaneamente as suspeitas que atingem suas instituições e a necessidade de formular um projeto consistente de desenvolvimento. Tratar essas agendas como incompatíveis, segundo ela, impede que a sociedade avalie propostas fundamentais antes das eleições.
Mudanças climáticas e novas pandemias
Entre as prioridades apontadas pela SBPC está a preparação para os impactos das mudanças climáticas. A entidade destaca que o país já enfrenta eventos extremos, como enchentes, queimadas, secas e crises de abastecimento de água.
Francilene lembrou que desastres recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul, as queimadas no Centro-Oeste e a escassez hídrica nas regiões Norte e Nordeste, demonstram que o novo regime climático já produz consequências econômicas e sociais.
Os efeitos atingem cidades, biomas e setores estratégicos, incluindo a agroindústria. Para a cientista, o país precisa adotar políticas permanentes de prevenção, adaptação e redução de danos.
Outra preocupação é a possibilidade de novas crises sanitárias. A presidente da SBPC considera necessário discutir antecipadamente como o Sistema Único de Saúde (SUS) será preparado para responder a futuras pandemias.
“Sabemos que isso ocorrerá, só não quando”, afirmou.
Ela também defende o fortalecimento das campanhas de imunização e a revisão das estratégias de comunicação pública diante do avanço de movimentos que negam a importância das vacinas.
Minerais estratégicos e soberania tecnológica
A exploração e o processamento de terras raras e outros minerais críticos também deveriam estar entre os principais assuntos da campanha, segundo Francilene. Esses recursos são essenciais para setores como energia limpa, telecomunicações, equipamentos eletrônicos, defesa e inteligência artificial.
A preocupação é que o Brasil permaneça apenas como exportador de matéria-prima, sem desenvolver tecnologia e capacidade industrial para processar seus próprios recursos minerais.
Enquanto países que lideram a economia mundial tratam o domínio dessas cadeias produtivas como uma questão estratégica, o assunto ainda aparece de forma periférica no debate eleitoral brasileiro.
A transformação digital e o avanço da inteligência artificial ampliam esse desafio. Para a presidente da SBPC, o país precisa definir qual grau de autonomia tecnológica pretende construir para a próxima década.
Envelhecimento da população exige planejamento
Francilene também chamou atenção para o rápido envelhecimento da população brasileira. Dentro de pouco mais de uma década, o país deverá se aproximar de um cenário no qual o número de pessoas com mais de 60 anos terá peso cada vez maior em relação à população em idade produtiva.
A mudança demográfica terá impactos sobre o sistema previdenciário, o mercado de trabalho, a saúde pública e as políticas de assistência social. Mesmo assim, o tema ainda recebe pouca atenção das candidaturas.
Para a pesquisadora, a ausência dessas discussões revela o distanciamento de parte da classe política em relação aos desafios estruturais do país.
“O país vai voltar a ser um país colônia, exclusivamente exportador de matéria-prima? Será isso que a população quer?”, questionou.
Na avaliação da presidente da SBPC, as eleições deveriam oferecer respostas sobre o modelo de desenvolvimento que o Brasil pretende adotar. Sem ciência, planejamento e investimento em tecnologia, o país corre o risco de chegar ao futuro como mero espectador das transformações que já estão redesenhando o mundo.
Com informações da Agência Brasil.
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